Luiz Gama

Texto de Alexandre de Oliveira Kappaun

“Advogado dos Escravos” e “Orfeu da Carapinha”: são os dois títulos que marcam a trajetória do advogado, poeta, jornalista, republicano, abolicionista e maçom Luiz Gonzaga Pinto da Gama. Nascido em Salvador, no dia 21 de julho de 1830, de pai fidalgo português e de mãe africana livre, Luiz Gama foi o mais importante abolicionista de São Paulo. Aos dez anos de idade, o seu pai o vendeu como escravo, a fim de pagar dívidas de jogo. Foi dessa maneira traiçoeira que o menino foi embarcado para o Rio de Janeiro e, depois, vendido a um comerciante da capital da província de São Paulo (GRINBERG: 2002, p. 497-498).

Ainda no cativeiro, Luiz Gama conseguiu se alfabetizar e, em 1848, ele fugiu e conseguiu provar o seu direito à liberdade. Foi, inicialmente, praça da Força Pública de São Paulo, copista de escrivão e amanuense no gabinete do delegado de polícia. Com a publicação, em 1859, do seu livro Trovas Burlescas de Getulino, Luiz Gama passou a ser reconhecido como um ácido poeta satírico, assim como o seu conterrâneo (e também poeta e advogado) Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”.

Através dos seus poemas satíricos, o “Orfeu da Carapinha” criticava a sociedade conservadora e a política do Brasil Império, atacava a escravidão e os privilégios da Igreja e buscava se identificar com o passado e a tradição africanas.

Que mundo? que mundo é este?
Do fundo seio dest’alma
Eu vejo… que fria calma
Dos humanos na fereza!
Vejo o livre feito escravo
Pelas leis da prepotência;
Vejo a riqueza em demência
Postergando a natureza.

Vejo o vício entronizado;
Vejo a virtude caída,
E de coroas cingida
A estátua fria do mal;
Vejo os traidores em chusma
Vendendo as almas impuras,
Remexendo as sepulturas
Por preço d’áureo metal.

Vejo fidalgos d’estopa,
Ostentando os seus brasões,
Feio enxerto de dobrões
Nos troncos da fidalguia;
Vejo este mundo às avessas,
Seguindo fatal derrota,

Em quanto farfante arrota
Podres grandezas de um dia!
[…] (GAMA: 1974, p. 123)

 

A publicação do livro abriu para o poeta as portas da intelectualidade paulista e ele passou a escrever em seminários humorísticos. Segundo o estudioso Julio Romão da Silva (1981, p. 79):

A poesia na vida de Gama não foi […] um acidente nem uma mania. Foi um recurso e uma circunstância. Usou-a como meio e não como fim. Em função, portanto, das suas ideias grandes e generosas. Arma terrível e perigosa pelo poder de penetração, compreende-se que o abolicionista não tenha dispensado essa modalidade literária – a sátira – para dela tirar proveito, como de todos os demais recursos que a coragem e a inteligência lhe facultaram na luta difícil e desigual.

O tom satírico das Trovas Burlescas, como o livro ficou mais conhecido, é herdeiro de uma tradição literária de sátira humanista, que remonta a Erasmo de Rotterdam, Johnatan Swift, Voltaire, Claudio Manoel da Costa e o já mencionado Gregório de Matos e vem até os dias de hoje. É “nessa época que ele funda o Diabo Coxo, com o qual […] se inaugura em São Paulo a imprensa humorística ilustrada” (SILVA: 1981, p. 35). Com a fundação do semanário humorístico, vem a perseguição e a demissão “a bem do serviço público”, “por turbulência e sedição” (SILVA: 1981, p. 36). Em relação à sátira e à ironia, pouca coisa mudou, desde os tempos do “Orfeu da Carapinha”, até o recente massacre do Charlie Hebdo. A crítica mordaz, ao por o dedo na ferida, acaba, quase que sempre, por incomodar e despertar reações iradas, desproporcionais e injustificadas.

A Maçonaria, com a sua tradição humanista e racionalista, herdeira do Iluminismo, contribuíram para o polimento das ideias anticlericais, republicanas e, também profundamente humanistas do “livre pensador” Luiz Gama (SILVA: 1981:75). Em 1868, foi um dos fundadores da loja maçônica América, da qual foi Venerável. A loja defendia a educação popular – chegando a fundar uma escola primária – e se dedicava a angariar fundos para a libertação de escravos (ROCHA:1999, p. 98; COSTA: 1999, p. 81; GRINBERG: 2002, p. 497).

Como autodidata, Luiz Gama se dedicou ao estudo do direito, o que o levou, posteriormente, a se dedicar integralmente à advocacia, sobretudo à defesa gratuita de escravos na justiça. A sua irreverência e os seus argumentos, fizeram com que se tornasse o inimigo número um dos fazendeiros e dos juízes conservadores (GRINBERG: 2002, p. 498). Sua boa retórica era forte e muito bem articulada, com argumentos como:

Para o coração não há códigos; e, se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo escravo que assassina o seu senhor, pratica um ato de legítima defesa. (GAMA apud BRAZ: 1991, p. 8)

Em pleno auge de sua carreira de luta contra a escravidão, no dia 24 de agosto de 1882, falecia Luiz Gama, aos 52 anos de idade e seis anos antes da Lei Áurea e do fim da escravidão no Brasil. O seu enterro foi um dos mais acorridos a que a cidade de São Paulo presenciou em toda a sua história. De acordo com o escritor Raul Pompéia, presente ao enterro do amigo:

Na necrópole da Consolação, já aos primeiros raios da lua, comprimia-se uma multidão imensa na qual se misturavam,confundidos e irmanados na mesma dor, todos os elementos da população, desde pobres escravos e libertos, até os mais graduados representantes do mundo social. Na profunda tristeza daquela massa humana, onde muitos soluçavam, naquele lugar, àquela hora, tinha-se a trágica impressão de qualquer coisa de encerrado e atrozmente irreparável… (POMPÉIA apud BRAZ: 1991, p. 34)

Conforme descreve Romão da Silva (1981, p. 97):

Era como a procissão do Senhor Morto na Sexta-feira da Paixão, entre lágrimas e lamentos pungentes.

Sobre o mar de cabeças curvadas da multidão em silêncio,pairavam, pendidas como fanais de um glorioso exército em continência, os estandartes do Centro Abolicionista, da Caixa Emancipatória, da Sociedade Quatorze de Julho e das Lojas Maçônicas América, de que fora ele fundador e venerável, e Sete de Setembro.

O desfile lento, interrompido em todo o longo percurso por manifestações de toda ordem, durou cerca de quatro horas.

Dizem os testemunhos que Joaquim Nabuco proferiu as seguintes palavras quando o corpo do “Orfeu de Carapinha” baixou à sepultura: “Os escravocratas têm tudo: têm dinheiro; têm o governo; têm a justiça. Mas não têm como nós, o cadáver do negro sublime!” (SILVA: 1981, p. 53). Justa homenagem àquele que foi o
“Advogado dos Escravos”, um dos maiores abolicionistas que o nosso Brasil conheceu.

 

Referências Bibliográficas:

BRAZ, Júlio Emílio. Luís Gama: De Escravo a Libertador. São Paulo: FTD, 1991

COSTA, Frederico Guilherme. A Maçonaria e a Emancipação do Escravo. Londrina: Ed. Maçônica “A TROLHA”, 1999.

GAMA, Luís. Trovas Burlescas. São Paulo: Editora Três, 1974.

GRINBERG, Keila. “Luiz Gama” in VAINFAS, Ronaldo (Direção). Dicionário do Brasil Imperial (1822—1889). Rio de Janeiro: Objetiva: 2002.

ROCHA, Luiz Gonzaga da. A Bucha E Outras Reminiscências Maçônicas. Londrina: Ed. Maçônica “A TROLHA”, 1999.

SILVA, J. Romão da. Luís Gama e suas Poesias Satíricas. 2 ed. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1981.

Rodrigo de Oliveira Menezes

M.'.M.'. da Loja Amizade, Trabalho e Justiça nº 36, Or.'. de Umuarama, filiado ao Grande Oriente do Paraná, filiado ao Supremo Conselho do Grau 33 do Paraná, Supremo Grande Capítulo de Maçons do Real Arco do Brasil e Conselho de Maçons Crípticos do Brasil.

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