O Primeiro Maçom Especulativo

Por Robert Cooper

Traduzido por Rodrigo Menezes

Elias Ashmole (1617-1692) não foi o primeiro Maçom Especulativo. Nem o segundo, terceiro ou décimo! Os primeiros Maçons Especulativos foram William, Lorde Alexander, e seu irmão Anthony Alexander (o Mestre dos Trabalhos do Rei) e o Senhor Alexandre Strachan de Thornton. Eles foram iniciados no terceiro dia de julho de 1634, na Loja de Edimburgo, isso é mais de 12 anos antes de Elias Ashmole [1]. Para entender a importância disso e marcar a iniciação de Ashmole no contexto, vamos fornecer algumas informações fundamentais.

No período desses eventos a Escócia era um país inteiramente independente da Inglaterra. A União das Coroas em 1603 (James VI da Escócia se tornou James I da Grã Bretanha) pelos reinos da Escócia e Inglaterra não uniu os dois países por completo. Por exemplo, a Escócia manteve seu próprio Parlamento, sistema monetário, leis, religiões e, claro, a Maçonaria. Em 1534, Henrique VIII da Inglaterra instituiu a reforma religiosa, se colocando como a cabeça da igreja no lugar do Papa de Roma. A sua motivação era para anular seu primeiro casamento com Catarina de Aragon e a recusa do Papa em prover tal anulação. O motivo era mais legal, jurisdicional e político do que religioso [2]. Uma vez estabelecido, Henrique aproveitou a oportunidade para confiscar a maior parte do dinheiro e propriedades da Igreja. As organizações que deram suporte e encorajaram a pré-Reforma religiosa foram abandonadas, seu dinheiro e propriedades foram confiscadas e isso incluiu as Guildas Inglesas. A situação na Escócia era um tanto diferente. A Reforma Protestante iniciou em 1559 e era de natureza religiosa. A Igreja Católica e muitas de suas práticas foram substituídas por um novo sistema religioso completo, baseado no Calvinismo. E tem mais! Diferente da Inglaterra, as Guildas Escocesas (conhecidas como Incorporações), não foram abolidas mas seu suporte religioso à pré-Reforma da Igreja simplesmente se encerrou quando a nova fé Protestante foi estabelecida [3].

As Incorporações Escocesas (diferente das extintas Guildas Inglesas) funcionaram na Escócia antes e depois da Reforma [4]. A principal proposta das Incorporações era de promover os interesses de seus membros. Considerá-las como uma forma primária de Sindicato Empregatício explica “o que elas eram à época”, mas elas faziam mais do que simplesmente negociar com empregadores. Elas eram responsáveis por regular o ofício de seus membros e estender seus trabalhos controlando pagamentos, supervisionando a qualidade do serviço, gerenciando os termos de aprendizado, promovendo funerais de membros falecidos, cuidando de suas viúvas e órfãos e também promovendo a moral de seus membros. Todos os grandes ofícios tinham suas Incorporações incluindo os Baxters (padeiros), Cordiners (sapateiros); Fleshers (açougueiros); Hammermen (ferreiros); Wobsters (tecelões); e claro os Masons (trabalhadores de pedra). Quando novos membros eram admitidos a uma Incorporação, certos segredos eram comunicados para cada novo membro [5]. Entretanto, e mais importante, somente a incorporação dos Maçons tinha um nível adicional – a Loja. Nesse ponto os Maçons eram únicos. A razão porque um corpo extra era necessário se dava ao fato de que a Incorporação de Maçons também incluía outros ofícios como os Wrights (carpinteiros) e Coopers (produtores de barris) e comunicar os segredos dos trabalhadores de pedra não podia ser realizado onde havia a presença de não-Maçons. A Loja era então o lugar onde os segredos eram transmitidos dos Trabalhadores de Pedra para os Trabalhadores de Pedra e a ninguém mais. Incorporações eram parte conhecida e aceita da sociedade Escocesa, elas eram a parte pública dos Maçons mas a Loja era o Segredo – a face privada do Ofício. As Incorporações mantiveram registros de seus trabalhos, já as Lojas não.

Isso mudou em 1598 quando o Mestre dos Trabalhos do Rei (“King’s Maister o’ Wark”, William Schaw (c. 1550-1602)) escreveu o que é hoje conhecido como o Primeiro Estatuto de Schaw e foi seguido pelo seu Segundo Estatuto em 1599. Por esses documentos que Schaw é conhecido como o Pai da Maçonaria Moderna. Sem entrar em detalhes sobre esses documentos, é importante entender que eles eram instruções endereçadas para todas as Lojas na Escócia. Ele contém um grande número de informações interessantes sobre as Lojas de Maçons, mas é importante aqui marcar que ele formaliza uma organização já existente. Schaw entendia seu trabalho como sendo ele o encarregado de uma ordem de Lojas espalhadas pela Escócia que eram controladas de forma informal, até desorganizadas. Seus Estatutos instituíam um sistema organizado que incluía a manutenção de registros e é por isso que o mais antigo registro de uma Loja só veio após seu estatuto [6].  O estabelecimento de um sistema nacional de Lojas de Maçons foi sem dúvida para o benefício do próprio Schaw, pelo ponto de vista da eficiência, mas também que os estatutos foram atualmente um subterfúgio para assuntos esotéricos que o espaço aqui não nos permite debater. Schaw morreu em 1602 deixando um sistema nacional de Lojas, como detalhado em seus estatutos, que conseguimos ver a continuidade até os dias atuais [7].

Uma das inevitáveis consequências das instruções de Schaw foi que as Lojas se tornassem fixas, permanente, instituições. Elas não seriam mais casuais, encontros quando necessário (normalmente para iniciar um candidato ou conduzir os trabalhos de uma Loja). Depois da morte de Schaw, as Lojas agora se reúnem em dias específicos (a principal reunião anual sendo no dia 27 de dezembro – o Festival de São João Evangelista) e mantém registros. Um grupo de homens agora identificável que se reunia com certa regularidade com certeza atraiu atenção da sociedade. Se essas Lojas admitiam não-operativos antes que Schaw as formalizasse, não teremos como sabe visto que não se mantinha registros escritos até que os estatutos as instruísse a fazê-lo. É um pensamento muito interessante, embora especulativo, que Schaw possa ter sido o primeiro não-operativo (um Maçom Especulativo) a ser iniciado em uma Loja.

Assim que Lorde Alexander, seu irmão e um amigo se tornaram membros da Loja de Edimburgo, outros não–operativos também se juntaram à Loja. Em 1635, Archibald Stewart de Hesselsyd se tornou membro. Ele foi seguido por David Ramsay (um “servo especial” do Rei – que agora era Charles I (1600-1649)) em 1637 e mais tarde naquele ano Alexander Alerdis se juntou à Loja. Henry Alexander (o irmão do Lorde Alexander e Anthony que foi admitido na Loja em 1634) se tornaram membros da Loja em 1638 [8].

A iniciação desses não-operativos é de grande importância para a compreensão da origem e desenvolvimento da Maçonaria Moderna mas a iniciação do Sr. Robert Moray (1608/09-1673) em 1641 é ainda mais importante por vários motivos. Ele foi o primeiro Maçom Especulativo a ser iniciado em solo Inglês. Resumidamente, Moray fazia parte do Exército Inglês que ocupou após o cerco a Newcastle, Inglaterra, durante a chamada “Guerra dos Bispos” (1639-1640). Membros da Loja de Edimburgo foram pioneiros contratados pelo exército para o trabalho de construir pontes e fortificações e realizaram uma reunião especial para iniciar Moray e outro general do exército, Alexander Hamilton. Não há nada de especial nisso, já que era uma prática conhecida como “inscrições abertas”, conforme atestado por várias Iniciações similares vistas em vários registros de Lojas. Também está de acordo com o velho costume da Maçonaria Escocesa de crer que uma Loja não possui um lugar fixo, mas que uma Loja é uma reunião de homens que pensam juntos e se unem para os propósitos da Maçonaria. Este registro da iniciação de Moray significa que ele foi feito Maçom cinco anos antes de Ashmole.

Moray foi o principal entusiasta da Fundação da Royal Society e tornou-se seu primeiro presidente. A reunião inaugural da sociedade foi realizada na quarta-feira, 28 de novembro de 1660, no Colégio Gresham, em Londres, com a presença de 12 eminentes cavalheiros. Ashmole não era um deles. Esses 12 prepararam uma lista de 40 outros emitentes cavalheiros para serem convidados para se unirem a nova sociedade. Ashmole estava na lista e, portanto, embora fosse um dos primeiros membros da Royal Society, não era membro fundador [9]. A Royal Society ainda realiza sua reunião anual no dia de Santo André (30 de novembro) em homenagem ao seu primeiro presidente Escocês [10]. Moray e Ashmole devem, portanto, ter se encontrado, mas não existe nada que eleve a natureza de seu relacionamento. Se eles já discutiram sobre Maçonaria também é desconhecido. A ausência de provas pode, ocasionalmente, fornecer algumas hipóteses, pois elas nos permitem comparar o “silêncio” com algo que é conhecido.

Como vimos, Moray foi iniciado em uma Loja fixa, permanente, como as dirigidas por William Schaw em seus estatutos [11]. Ashmole, em comparação, foi iniciado em uma Loja cuja evidência de sua existência é uma anotação antiga em seu diário pessoal. Parece, portanto, que a Loja em Wattington, Inglaterra, era na melhor das hipóteses uma Loja ocasional, e consequentemente muito diferente das Lojas Escocesas. Se elas trabalhavam da mesma forma, ou mais especificamente, se conduziam as mesmas cerimônias de iniciação é um segredo. É dito que não sabemos nada sobre os rituais Maçônicos em uso antes de 1717 [12]. Isso é incorreto pois há uma grande quantidade de material escrito sobre esse mesmo assunto [13]. Estes rituais compreendem uma família de documentos muito semelhantes, dos quais o Edinburgh Register House MS de 1696 é o mais antigo deles [14]. A existência desses rituais nos permite ver o formato das cerimônias usadas por Lojas na Escócia antes da existência de qualquer Grande Loja e aumenta as questões sobre que tipo de cerimônia Ashmole experimentou. Foi a mesma praticada nas Lojas Escocesas? Se sim, então ele teria sido iniciado como Moray, no “Estilo Escocês”. Se não, então não estava de acordo com a prática estabelecida à época.

O interesse de Ashmole na Maçonaria era, na melhor das hipóteses, fugaz. Seus diários detalhados e meticulosos mostram que ele foi “iniciado” em Warrington em 16 de outubro de 1646. Ele nunca mais compareceu a uma reunião em Loja. A única outra ocasião maçônica relacionada a Ashmole é novamente encontrada em um diário de 1682 quando ele participou de uma reunião de Maçons na Mason’s Livery Company (algo como Companhia de Maçons de Panelas). A carreira maçônica de Ashmole está em forte contraste com os Maçons especulativos mencionados acima, que continuaram a frequentar as reuniões da Loja por vários anos após sua Iniciação, sendo impedidos somente durante a guerra. Ashmole não escreveu nada sobre a Maçonaria além das duas breves entradas em seu diário. Moray, por outro lado, escreveu uma grande quantidade, principalmente descrevendo e interpretando o uso da Marca do Maçom e o que a Maçonaria significava para ele [15]. Ele não revelou o que poderia ser considerado um segredo Maçônico e não estava preocupado com as pessoas o reconhecendo como Maçom [16]. Em comparação a Ashmole, Moray considerava seu ingresso a uma Loja muito importante, e a Maçonaria e particularmente sua Marca de Maçom com um símbolo místico significante.

Moray e Ashmole compartilhavam algo em comum – o interesse em alquimia. Moray construiu um laboratório de alquimia no Palácio Whitehall. Os quartos foram doados pelo Rei. Ele era amigo pessoal de Charles II (1630-1685) e foi essa amizade fundamental para obter a aprovação para a Royal Society em 1662 [17]. Um de seus experimentos foi a tentativa de extrair chumbo de uma rocha e depois de transformar esse chumbo em prata. Nisso ele foi parcialmente sucedido e relatou os resultados do experimento para a Royal Society.

CONCLUSÃO

Podemos ver no breve resumo do sistema de Lojas Escocesas descrito acima que mais de 100 anos depois da existência de qualquer Grande Loja, as Lojas de Maçons Operativos já iniciavam não-operativos. Eles o fizeram por uma variedade de razões e uma vez feito, nunca mais pararam a admissão de não-operativos em suas Lojas. A Maçonaria Especulativa Moderna nasceu entre várias adições, mudanças e elaborações. A mudança nas Lojas de Operativos para Lojas Maçônicas Modernas é conhecida como a “Teoria da Transição” e é algo que pode ser visto claramente nos registros escritos das Lojas Escocesas. Os detalhes dos indivíduos reais, Maçons Especulativos, iniciados já em 1634 são parte da evidência escrita. Informações como essa destacam a importância desses registros das Lojas.

Para aqueles que desejam saber mais sobre os primeiros dias da Maçonaria Moderna, não posso fazer melhor do que recomendar os trabalhos do Professor David Stevenson. São eles: “As Origens da Maçonaria – O Século Escocês 1590-1710” (esse livro existe traduzido em português, encontrado em Sebos) e “O Primeiro Maçom – As Primeiras Lojas Escocesas e seus membros (The First Freemasons – Scotland’s Early Lodges and their members, sem tradução até o momento)”.

NOTAS

1 A Loja ainda existe é é conhecida como a Loja de Edimburgo da Capela de Maria (Lodge of Edinburgh Mary’s Chapel), No. 1. Os registros da Loja são de 31 de julho de 1599 e continuam até a presente data.
2 O Ato de Supremacia de 1534 encerrou a autoridade Papal sobre a Igreja na Inglaterra e transferiu-o para a Coroa.
3 Muitas dessas incorporações continuam a existir na Escócia até os dias atuais, incluindo, por exemplo, a Incorporação dos Maçons de Glasgow que possui registros existentes de 1475. Eles agora não confinados a corpos de caridade.
4 Existe muito poucas referências a Lojas antes da Reforma mas o mais importante ocorre em 1491, quando Maçons de Edimburgo foram permitidos a usarem a Loja para “assuntos recreativos”. Veja o Apenso 1, O Mágico Maçônico (The Masonic Magician), pag. 246.
5 Por exemplo um membro de uma Incorporação dos Ferreiros de Dundee foi expulso em 1653 por revelar os segredos do ofício a um não-membro. Veja The Burgh Laws of Dundee, pag. 493.
6 A primeira dessas Lojas foi a Aitcheson’s Haven que começa em 09 de janeiro de 1599.
7 As estátuas foram recentemente reproduzidas no The Rosslyn Hoax?, Apenso 1 e 2. pags. 330 – 335.
8 Later the 2nd Earl of Stirling.
9 Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, págs. 22 – 23.
10 Santo André é o Santo Padroeiro da Escócia.
11 Por essa razão que elas são ocasionalmente referidas como as “Lojas de Schaw”.
12 Veja: ‘From Elias Ashmole to Arthur Edward Waite’ em Philalethes, Winter 2011, pág 24.
13 Esses rituais ou catecismos foram descobertos desde 1930 quando o mais antigo deles, o Edinburgh Register House MS datado de 1696 foi descoberto e anunciado ao mundo Maçônico na ‘Ars Quatuor Coronatorum’ (AQC) Volume 43, págs. 153 – 155. (Esse é o jornal anual da Loja Quatuor Coronati, No. 2076 a mais antiga Loja de Pesquisa do mundo).
14 Outros Rituais pré-Grande Loja nessa família são documentos datados de 1700, 1705, 1710 e 1715.
15 Esse debate está contido em Kincardine Letters escrito entre 1657 – 1659.
16 Pelo ponto de vista histórico, é uma pena que ele não discorreu sobre qualquer aspecto dos rituais da Loja incluindo os tão chamados “segredos” mas talvez isso tenha ocorrido indicação que ele levou do seu juramento (obrigação) ao coração.

17 A Sociedade foi, de fato, garantira por três cartas Reais: 1662, 1663 e 1669 todas durante o tempo de vida de Moray. Na segunda delas “o próprio Rei se declara Fundador e Patrono da Sociedade.’

A imagem da Marca do Maçom de Robert Moray, desenhada pelo mesmo.

Rodrigo de Oliveira Menezes

Rodrigo de Oliveira Menezes

M.'.M.'. da Loja Amizade, Trabalho e Justiça nº 36, Or.'. de Umuarama, filiado ao Grande Oriente do Paraná, filiado ao Supremo Conselho do Grau 33 do Paraná, Supremo Grande Capítulo de Maçons do Real Arco do Brasil e Conselho de Maçons Crípticos do Brasil.

3 comentários em “O Primeiro Maçom Especulativo

  • 1 de agosto de 2018 em 09:31
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    O que me dizem sobre isto?
    A (VERDADEIRA) PRIMEIRA GRANDE LOJA

    Com a difusão do cristianismo por toda a Alemanha e a exigência de que bispos romanos erguessem catedrais, os colégios Maçônicos na Alemanha prosperaram. Geralmente designado como Steinmetzen ou Canteiros, estas fraternidades maçônicas levantaram igrejas e catedrais por toda a Europa continental.

    A sociedade de canteiros tinha dentro de si uma grande variedade de classes e ocupações. Estas incluíam Steinmaurer ou assentadores de pedras, Steinhauer ou cortadores de pedra, bem como Steinmetzen, uma palavra derivada de Stein ou pedra e Metzen, um derivado da palavra Metzel ou entalhador, uma arte mais detalhada e refinada que os cortadores de pedras. A construção de Bauhütten ou lojas situadas junto às igrejas em construção serviu como estúdio de projeto, local de trabalho e quarto de dormir.

    Um dos mais antigos registros de lojas maçônicas se encontra na cidade alemã de Hirschau (agora Hirsau) no atual estado de Baden-Württenberg. As lojas Maçônicas instituídas na cidade de Hirschau no final do século 11 trabalhavam sob a ordem beneditina da Alemanha, e foram as primeiras a estabelecer o estilo gótico de arquitetura.

    AS ARMAS DOS FRANCO- MAÇONS DA ALEMANHA

    Já em 1149, as primeiras Zünftes alemãs ou sindicatos de pedreiros se desenvolveram em Magdeburg, Würzburg, Speyer e Straßburg. Em 1250, a primeira Grande Loja dos Maçons formou-se na cidade de Colônia (Köln), [i] Alemanha. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia.

    O primeiro congresso maçônico ocorreu na cidade de Straßburg, na Alemanha no ano de 1275. Ela foi fundada pelo Grão Mestre Erwin von Steinbach. Este também foi o primeiro uso registrado do símbolo dos maçons, o compasso e o esquadro. Embora Straßburg fosse considerada a primeira Grande Loja de seu tempo, outras Grandes Lojas maçônicas já haviam sido fundadas em Viena, Berna e a acima mencionada de Colônia; estas foram chamadas Oberhütten ou grandes lojas. Diversos congressos maçônicos foram realizados na cidade de Straßburg, incluindo os anos 1498 e 1563. Nesta época, as primeiras Armas de Maçons registradas na Alemanha foram registradas representando quatro compassos posicionados em torno de um símbolo do sol pagão, e dispostos em forma de suástica ou roda solar ariana. As Armas Maçônicas da Alemanha também exibiam o nome de São João Evangelista, santo padroeiro dos maçons alemães.

    A Oberhütte (Grande Loja) de Colônia, e seu grão-mestre, era considerada a cabeça das lojas maçônicas de toda a Alemanha do norte. O grão-mestre da Straßburg, na época uma cidade alemã, era chefe de Lojas Maçônicas de todo sul da Alemanha, Francônia, Baviera, Hesse e as principais áreas da França.

    As Grandes Lojas de Maçons na Alemanha recebiam o apoio da Igreja e da Monarquia. O Imperador Maximiliano revisou o congresso maçônico de 1275 em Straßburg e proclamou a sua proteção ao ofício. Entre 1276 e 1281, Rudolf I de Habsburgo, um rei alemão, tornou-se membro da Bauhütte ou Loja de St. Stephan. O Rei Rudolf foi um dos primeiros não-operativos, também chamados membros livres ou especulativos de uma loja maçônica.

    Os estatutos dos maçons na Europa foram revisados em 1459 pela Assembléia de Ratisbonne (Regensburg), a sede da Dieta Alemã, cuja revisão preliminar tinha ocorrido em Straßburg sete anos antes [ii]. As revisões descreviam a exigência de testar irmãos estrangeiros antes de sua aceitação nas lojas através de um método de saudação estabelecido (aparentemente internacional ou europeu).

    A primeira assembleia geral de maçons na Europa ocorreu no ano de 1535, na cidade de Colônia, na Alemanha. Ali, o bispo de Colônia, Hermann V, reuniu 19 lojas maçônicas para estabelecer a Carta de Colônia, escrita em latim. As primeiras grandes lojas dos maçons estiveram presentes, o que era costume na época, e incluíam a Grande Loja de Colônia, Straßburg, Viena, Zurique e Magdeburg. A Grande Loja Mãe de Colônia, com o seu grande mestre era considerada a principal Grande Loja da Europa.

    Após a invenção da imprensa, os maçons (Steinmetzen) da Alemanha, reuniram-se em Ratisbona em 1464 e imprimiram as primeiras Regras e Estatutos da Fraternidade de Cortadores de Pedra de Straßburg (Ordnung der Steinmetzen). Estes regulamentos foram aprovados e sancionados pelos Imperadores sucessivos, tais como Carlos V e Ferdinando.

    O monge alemão Martinho Lutero e seu protesto contra as injustiças e hipocrisias da Igreja Católica em 1517 deram origem ao protestantismo. Isto liberalizou algumas das lojas maçônicas da época. A Catedral de Straßburg tornou-se Luterana em 1525 e muitas outras a seguiram.

    Em 1563, os Decretos e Artigos da Fraternidade de Canteiros foram renovados na Loja Mãe em Straßburg no dia de S. Miguel. Estes regulamentos demonstram três elos importantes com a Maçonaria moderna. Em primeiro lugar, os aprendizes eram chamados de “livres” na conclusão do serviço a seu Mestre, o que sem dúvida é a origem da palavra Freemason ou “franco-maçom”. Em segundo lugar, a natureza fraternal da loja era retratada em uma série de regulamentações, tais como o atendimento aos doentes, ou a prática de ensinar um irmão sem cobrar, nos termos do artigo 14. Em terceiro lugar, os maçons utilizavam um aperto de mão secreto como meio de identificação.

    Dois artigos do regulamento indicando estes pontos são:

    “NENHUM MESTRE ENSINARÁ UM COMPANHEIRO POR DINHEIRO”.

    XIV. E nenhum artesão ou mestre aceitará dinheiro de um colega para mostrar ou ensinar-lhe qualquer coisa relacionada com maçonaria. Da mesma forma, nenhum vigilante ou companheiro mostrará ou instruirá qualquer um por dinheiro a talhar, conforme dito acima. Se, no entanto, alguém desejar instruir ou ensinar outro, ele pode muito bem fazê-lo, uma mão lavando a outra, ou por companheirismo, ou para assim servir ao seu mestre.

    LIV. Em primeiro lugar, cada aprendiz quando tiver servido o seu tempo, e for declarado livre, prometerá à ordem, pela verdade e sua honra, ao invés de juramento, sob pena de perder o seu direito à prática da maçonaria, que ele não divulgará ou comunicará o aperto de mão e a saudação de pedreiro a ninguém, exceto àquele a quem ele pode justamente comunicá-las, e também que ele não escreverá coisa alguma sobre isso” [III].

    As regras de Straßburg estipulavam que a entrada na Fraternidade era por livre vontade e indicava claramente os três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre na fraternidade maçônica alemã. Elas exigiram que se fizesse um juramento e que os pedreiros se reunissem em grupos chamados ‘Kappitel’ (Capítulo). As regras instruíam os maçons não ensinar Maçonaria a não-maçons.

    Está claro que as lojas ou grandes lojas maçônicas alemãs existiam antes da formação da Grande Loja de Inglaterra em 1717. Assim como o uso de apertos de mão secretos, o uso do termo “livre” e sua aceitação de não-operativos. O uso de alegoria e simbolismo em camadas, que torna exclusivo o sistema maçônico fraternal, também era evidente nas lojas alemãs da época, conforme mostrado nas esculturas de pedra e estilos arquitetônicos das igrejas e mosteiros que eles construíram.

    A partir da página Web http://www.klovekorn.com:

    O 99º of Freemasonry apóia a teoria de que a semente da Maçonaria moderna, não estava ligada aos Cavaleiros Templários ou à maçonaria inglesa, mas originou-se com as instituições maçônicas da Alemanha, que por sua vez, tinham recebido os seus conhecimentos maçônicos de organizações maçônica mais antigas. Esta afirmação é suportada através de sete pontos principais de prova.

    1. Que o Manuscrito Régio, o mais antigo texto maçônico (reconhecido) sobrevivente na Grã-Bretanha, faz referência aos quatro mártires coroados, que estão inequivocamente relacionados com a lenda dos maçons sob o Sacro Império Romano de Nação Germânica, uma tradição maçônica que teve origem na Alemanha e não na Grã-Bretanha.

    2. A existência e o mais antigo uso registrado do esquadro e compasso ( sinal fraternal da Maçonaria) nas Armas dos Corpos Maçônicos Alemães.

    3. A existência de instituições maçônicas altamente organizadas (Steinmetzen) na Alemanha no século 13, tais como a Grande Loja (Oberhütte) de Straßburg e Köln, e diversas lojas maçônicas subordinadas, que não só trabalhavam em pedra, mas também incluíam ensinamentos alegóricos maçônicos dentro de suas guildas.

    4. A eleição de um Grão-Mestre dos Maçons no século 13 e a criação de graus de aprendizes, companheiros e mestres pedreiros na Alemanha no século 12 e anteriormente.

    5. O estabelecimento de Estatutos e Regras impressos da Ordem Maçônica na Alemanha antes da criação de estatutos maçônicos escritos na Grã-Bretanha.

    6. A inclusão de membros não-operativos (ou especulativos), tais como o Rei Rodolfo I em lojas maçônicas na Alemanha no século 13.

    7. A primeira exigência em grande escala registrada de que lojas maçônicas utilizassem um método secreto de saudação e de ‘aperto de mão’.

    O 99º of Freemasonry também analisa o uso do compasso e esquadro como símbolos alegóricos morais de maçonaria em obras de arte dentro da cultura alemã do período, mais uma prova da filosofia maçônica dentro da cultura alemã e da Europa continental neste período.

    Embora muitos maçons tenham sido condicionados a aceitar que as origens da Maçonaria partem da Inglaterra ou da Escócia, pois as grandes organizações maçônicas modernas atuais estão profundamente interligadas dentro desta área geográfica, o 99º of Freemasonry lança nova luz sobre a história maçônica, e insta, se não inspira os leitores a olhar para o continente europeu como a grande semente da Maçonaria.

    [I] Rebold, Emmanuel & Fletcher, Brennan J (Ed), História Geral da Maçonaria na Europa – com base em documentos antigos relativos a, e monumentos erguidos por esta fraternidade, desde a sua fundação no ano 715 aC até o presente momento, Cincinnati, publicado pela Geo. B Fessenden 1867, reimpressão por Kessinger Publishing EUA.

    [II] Naudon, Paul, A História Secreta da Maçonaria – Suas Origens e Conexões com os Cavaleiros Templários. EUA. Traduzido por Jon Graham. Inner Traditions, Rochester, Vermont, Copyright 1991 de Editions Dervey, Tradução para Inglês- copyright 2005 por Inner Traditions International. Originalmente publicado em francês sob o título “Les origins de la Franc-Maçonnerie, Le sacre le métier, Paris. ISBN 1-59477-028-X, pag 6. pag 174.

    [III] Gould, Robert Freke, A História da Maçonaria, suas antiguidades, símbolos, Constituições, Costumes, etc. Volume 1 T.C. & E. C. Jack, Grange Publishing Works, Edinburgh, pag. 122.

    Publicado originalmente em http://www.freemasons-freemasonry.com/freemasons_history_germany.html

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    • Rodrigo de Oliveira Menezes
      1 de agosto de 2018 em 17:00
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      Vou responder com o que escrevi no Facebook sobre o mesmo texto: “Eram Guildas ou Incorporações operativas, ainda existem como a Compagnonnage Francesa, ainda não era Maçonaria.”

      Veja bem, diferente do que o texto do Cooper diz, a Teoria da Transição já caiu por terra a algum tempo, isso a bibliografia usada pelo autor acima não acompanhou.

      O próximo texto a ser publicado fala um pouco sobre o movimento RosaCruz (Manifestos do começo de 1600) e sobre a Naometria de Simon Studion, também chamada de “A medida do Templo”.

      A Ordem Maçônica como sociedade esotérica nasceu em paralelo com as Guildas Operativas, veja que a Compagnonnage na França ainda existe e sempre foi operativa.

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