Quadrinhos, Heróis e Maçonaria

O barulho da moto me fez virar para ver quem era, e vi aquele colega de trabalho chegando ao campus da universidade, com sua jaqueta de couro e bolsa, num sujeito com uma  mistura cosplay de Indiana Jones e lenhador canadense.

Logo, ele se tornaria meu irmão de Loja. A entrevista abaixo é com o irmão Shesmman Fernandes.

Graduado em História pela Universidade Paranaense (2007) e mestrado em História pela Universidade Estadual de Maringá (2012). Atualmente atua como professor do Curso e Colégio Alfa de Umuarama, no Ensino Médio e no Curso Pré-Vestibular, e como professor da Universidade Paranaense (Unipar).  Sua pesquisa de mestrado foi “A história em quadrinhos enquanto representação política : Capitão América e Caveira Vermelha “

 

  1. Shesmman , conte para nossos leitores como foi o começo do seu contato com os Quadrinhos, e qual deles realmente te encantou? Isso foi na infância, adolescência ou vida adulta?

O meu contato com o universo dos quadrinhos, posso dizer que começou antes mesmo de aprender a ler, lembro que ainda criança minha mãe e  tias liam para mim. Porém, foi na adolescência que começou minha paixão pelas HQ´s, me encantava aquele universo alternativo a nossa realidade e seus elementos fantásticos.

Sempre gostei muito dos Vingadores, Capitão América e Batman, heróis não tão “Supers”, mais urbanos e próximos a nossa realidade. Os valores passados pelas histórias que a primeiro momento eram apenas diversão, viraram ideais de valores, de construção de personalidades e até hoje os símbolos que os heróis dos quadrinhos representam me inspiram na minha constante formação como pessoa.

 

  1. E qual o papel deles no momento que você vivia? Foi mais uma fuga para um mundo alternativo ou algo que te movia na realidade em que vivia?

              Eu acredito que o papel dos Quadrinhos, na atual sociedade é ainda muito subestimado, como te falei, fizeram parte de minha formação. Além disso, representam a história dos países que estão inseridos, logico que, cada um vai interpretar essas representações de acordo com seu referencial.

 

  1. Os Quadrinhos hoje são considerados a 9 ª Arte . Riccioto Canudo teórico e crítico de cinema  pertencente ao futurismo Italiano assim o define. No começo eram as artes, como a dança, escultura, literatura, música, pintura e teatro. E as artes eram boas e todas eram iguais aos olhos dos criadores. As artes existiam e faziam com que os apreciadores se sentissem um pouco mais humanos e com que os criadores se sentissem plenos. E isso era bom. E isso bastava. Mas o homem, em sua infinita insatisfação e busca por expressão, inventou o cinema. E o cinema maravilhou apreciadores e encantou criadores.

Ricciotto Canudo o considerou a mais completa das artes, pois englobava todas as outras artes. E em 1923 publicou o “Manifesto das Sete artes” organizando-as da seguinte forma:1ª Arte – Música (som); 2ª Arte – Dança/Coreografia (movimento); 3ª Arte – Pintura (cor); 4ª Arte – Escultura (volume); 5ª Arte – Teatro (representação); 6ª Arte – Literatura (palavra); 7ª Arte – Cinema (integra os elementos das artes anteriores).A partir daí as artes passaram a ter classificação e a serem vistas tanto por apreciadores quanto por criadores com olhos cartesianos.E quando Canudo chegou à clareira no final da estrada, outros homens continuaram seu trabalho de sistematização das artes:8ª Arte – Fotografia (imagem); 9ª Arte – Quadrinhos (cor, palavra, imagem);’ 10ª Arte – Jogos de Computador e de Vídeo (no mínimo integra as 1ª, 3ª, 4ª, 6ª, 9ª arte); 11ª Arte – Arte digital (integra artes gráficas computorizadas 2D, 3D e programação).

Mas com a classificação também veio a divergência: alguns acharam que o teatro deveria ser colocado antes da literatura. Outros acham que a televisão poderia ser a oitava arte, ou até mesmo a nona arte! Mas os quadrinhos, que começaram como entretenimento simples, barato e de massa, evoluíram e se estabeleceram definitivamente como arte. E como arte se apresentam ao mundo, como a nona arte!.

 Pergunto, Ir. Shesman , qual seu pensamento sobre o papel dos Quadrinhos/HQs como arte na sociedade em que vivemos ? Pode partir de sua Dissertação de Mestrado, conte-nos um pouco a respeito..

 

“Em minha dissertação de Mestrado, onde abordei sobre isso, mais especificamente sobre o Capitão América, tentei mostrar como o personagem está ancorado a formação do povo americano, não do governo americano, mas de suas pessoas mesmo, de seu povo.

Momentos históricos, inimigos, confrontos da sociedade americana, lembrando que foi um personagem feito por americanos, sobre americanos e para americanos.

 Os quadrinhos podem ser utilizados como simbolismo, elucidação de momentos histórico e social pelo qual os países estão passando.”

 

  1. Vemos que os temas das HQs possuem uma variedade de temas extremamente ampla indo de sarcasmo e sátiras até instruções sobre conduta moral e/ou religiosa, na ciência isso se explica pela A plasticidade neural é a capacidade do cérebro em desenvolver novas conexões sinápticas entre os neurônios a partir da experiência e do comportamento do indivíduo. A partir de determinados estímulos, mudanças na organização e na localização dos processos de informação podem ocorrer. Através da plasticidade, novos comportamentos são aprendidos e o desenvolvimento humano torna-se um ato contínuo. Esse fenômeno parte do princípio de que o cérebro não é imutável, uma vez que a plasticidade neural permite que uma determinada função do Sistema Nervoso Central (SNC) possa ser desenvolvida em outro local do cérebro como resultado da aprendizagem e do treinamento.

 Você consegue descrever alguma experiência que tenha obtido que possa afirmar uma mudança em seu comportamento por influência desse tipo de leitura?

“Teve sim, a parti do momento que comecei a pesquisar mais sobre o Capitão América, fiquei muito mais tolerante, respeito pelo liberdade de pensamento mudou bastante. Entendi que não é um personagem, como associamos ao estereotipo sobre os EUA, que é uma imagem que remetemos a uma certa agressividade, violência.

Mesmo sendo um personagem de ação, o herói acaba tomando a rédea das situações, e fazendo justiça prevalece a tolerância a partir dos valores de cada indivíduo, onde vejo o respeito a diferenças. Não é porque o indivíduo não pensa como eu que ele está errado, ou devo forçar minha visão sobre esse indivíduo. Eu era mais intolerante, mais impositivo, acreditava que as pessoas tinham que ter a minha visão. Percebi que o respeito não está na imposição, as no diálogo para aceitar o acordo.

O Capitão América me ensinou isso. A não imposição do que acredito ser verdade e hoje vivemos um momento trágico de nossa sociedade, um momento de imposição, as pessoas acreditam que o viés da intolerância e truculência seria a saída, e o personagem me ensinou que não é assim. Sempre foi abordado por exemplo nas histórias do Capitão América, o respeito das minorias, como a temática do racismo, tendo em vista a intolerância americana com raças diferentes.”

 5.Existe o eterno debate Dc X Marvel. Mas a indústria dos quadrinhos possui um leque de selos que se voltam para determinados temas, quais você considera interessantes?

“Não tenho preferência por editoras, gosto dos personagens. Capitão América, e Vingadores. Homem de Ferro, apesar de que esse personagem nas HQs é menos arrogante que nos filmes. Mesmo as pessoas dizendo que se gosta de um não pode gostar do outro. Acho uma besteira essa disputa polarizada, Batman, Mulher Maravilha, são fantásticos. Não gosto de rotular, são personagens bons, historias boas que sejam validos para que a sociedade caminhe para melhor, que progrida, gosto de personagens que inspirem esse tipo de mudança.” 

  1. Shemman, Você definiria o papel dos quadrinhos na sua formação Maçônica como…? ( começe com um adjetivo e desenvolva ..)

“Respeito, Dialogo, Honra, vejo esses valores aliado a ideias maçônicos na figura do Capitão América, pelo companheirismo, defesa de liberdade e firmeza de caráter.”

  1. O que pensa da ideia da transmissão de instruções para Aprendizes na forma de Quadrinhos ? isso já é feito de modo complementar como no caso de Sandman de Neil Gaiman, onde é em enxertos de forma velada ou no mais direcionado como o  “Le livre du Fracn  Macon”(https://livre.fnac.com/a10188471/Jakin-Bd-Le-livre-du-franc-macon )

 

“Acho fantástica. É a maneira mais fácil, didática e lúdica e objetiva de transmissão de conhecimento. O próprios exército americano já faz isso.

Não conheço esse quadrinho que você citou, mas gostaria muito de ler e já vou procura-lo pelo link. Qualquer conhecimento seria fantástico transmitir por quadrinhos, vou procurar esse que falou, fiquei muito curioso !”

8. Sobre estereótipos e o sincretismo religioso nos personagens de HQs, o que pensa a respeito? Os seus preferidos e quais você acredita ser a personificação do bem e do mal? existe algum que possa ser considerado a personificação do homem maçom?

 “É um assunto complicado tendo em vista que raros personagens assumem abertamente sua religião.

Ir. Shesmman com o escudo de seu personagem preferido

O Demolidor, por exemplo, é  explicitamente um personagem Católico, em muitas histórias ele vai pedir conselhos a Padres e freiras. Muitos tentam não se envolver nessa questão. Os quadrinhos em sua maioria evitam entrar nesse assunto por ser uma mídia de massa, para não confrontar crenças de leitores.

Esse elemento, o Homem Maçom, como já citei o Capitão América.  E outro o Super Homem, homem perfeito, puro em sua essência, por não ser humano consegue essa pureza, e seria um maçom perfeito. No primeiro o mais próximo de nós, no segundo oque buscamos ser.

No video enviado pelo irmão acima, vemos o motivo do Capitão América ser um herói mesmo sem o soro.

 

9.O venerável de minha loja o saúda por 3 x 3 , e assim encerramos nossa entrevista com a nona pergunta sobre a nona arte, qual sua mensagem para os leitores ?

“Não subestimem os quadrinhos, há muito tempo deixaram de ser coisa de criança. Ele não é Gibi ou “gibizinho” como alguns dizem pejorativamente. Assuntos muito sérios pode ser transmitidos por eles.

Deixo uma mensagem do mundo “Nerd”, não é propriamente dito dos quadrinhos, mas tá valendo: “Uma vida longa e próspera.”

Um grande abraço a todos , foi muito bom participar dessa entrevista com vocês.”

Bruno Oliveira

Bruno Oliveira

Mestre Maçom da Loja Amizade, Trabalho e Justiça, Oriente de Umuarama/PR filiada ao GOP - COMAB. Senior Demolay e Past MC do Capitulo Umuarama nº133 da Ordem Demolay - SCODRFB. Past-Sumo Sacerdote do Capitulo Umuarama nº 43 de Maçons do Real Arco filiado ao Supremo Grande Capítulo de Maçons do Real Arco do Brasil e Membro Fundador do Conselho Zohar filiado ao Supremo Grande Conselho de Maçons Crípticos do Brasil.

Deixe uma resposta